A internet como ferramenta da educação.
Aprendizado é ação.
Do contrário, é só informação.

'Insanidade é continuar a fazer as coisas da mesma forma e esperar um resultado diferente. Não é o que você faz que faz a diferença é a maneira como faz. Tem que aprender a fazer a mesma coisa de forma diferente.'






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sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Pequeno Príncipe

É bom reler bons livros e lembrar das lições que aprendemos com eles. Hoje, por causa de uma frase colocada no MSN de alguém muito especial, fui levada à uma viagem no tempo. Leia o trecho do livro, bem no momento em que o pequeno príncipe encontra a raposa e irá entender a beleza destas palavras:
"_ Que quer dizer cativar?
_É algo quase sempre esquecido, significa criar laços... criar laços? É, se tu me cativas teremos necessidade um do outro, serás para mim único no mundo. Se tu me cativas minha vida será como cheia de sol...os teus passos me chamarão para fora da toca, como se fosse música... A GENTE SÓ CONHECE BEM AS COISAS QUE CATIVOU...
- Que é preciso fazer?
- É preciso ser paciente. Cada dia te sentarás um pouco mais perto...E assim, se tu vens às 4 da tarde, desde às 3 começarei a ser feliz, as 4, então, estarei inquieta e agitada, descobrirei o preço da felicidade...Eis o meu segredo, só se vê bem com o coração: o essencial é invisível aos olhos... Foi o tempo que perdeste com "as tuas rosas" que as fizeram tão importantes...os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer, tu te tornas ETERNAMENTE responsável por aquilo que cativas..."
Em segundo lugar, me dei conta de que o trecho pertencia ao livro O Pequeno Príncipe, parte do diálogo entre o Príncipe e a raposa e resolvi lê-lo novamente.
Achei a obra completa aqui . É curtinho, mas cheio de lições preciosas que precisam ser entendidas nas entrelinhas do texto, que parece ser pra crianças, mas não é. Cada personagem tem algo a nos ensinar, então vou compartilhar aqui.
O Pequeno Príncipe
“Quando a gente acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta.”
Perplexo com as contradições dos adultos, o pequeno príncipe simboliza a esperança, o amor e a força inocente da infância que habita o nosso inconsciente.
Extraordinário e misterioso, ele vive em um planeta muito pequeno. Lá, um dia, apareceu uma flor.

O Piloto
“As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas.”
Foi desencorajado, aos seis anos, pelos adultos que não reconheceram a sua sensibilidade artística e a sua capacidade de ver além das aparências. Mas anos depois, longe de todos, desenha a sua própria história.O piloto é a prova de que nunca é tarde para irmos atrás dos nossos sonhos.


A Rosa
“É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”....
Ela começou a crescer, parecia vir do nada.
Ficou horas se arrumando e ajeitando suas pétalas...
E é linda!
Mas também orgulhosa, caprichosa e contraditória.O pequeno príncipe apaixona-se e vive para atender aos seus caprichos:
um lanchinho, o para-vento, uma redoma.
Mas ela nunca está satisfeita e o nosso herói decide partir
Embora pareça contraditória, entre caprichos e sabedoria, a rosa é extremamente feminina e sedutora.
Por isso, cativa o coração do principezinho.
O Rei
"É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar"
É o primeiro dos “donos do mundo” que o pequeno príncipe encontra nas galáxias. O rei pensa que tudo e todos são seus súditos e tem necessidade de controlá-los. Mas, com sabedoria, nos ensina que cada um só pode dar aquilo que tem.

O Vaidoso
"Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios."
O vaidoso precisa da admiração de todos para comprovar o seu valor.
Ele nos faz lembrar que precisamos reconhecer nossos próprios talentos e capacidades, e não depender de elogios dos outros para nos auto-afirmar.


O Bêbado “– Por que é que bebes?
– Para esquecer.
– Esquecer o quê?
– Esquecer que eu tenho vergonha.
– Vergonha de quê?
– Vergonha de beber!”
O bêbado tenta escapar da realidade por meio do álcool, mas não consegue escapar da vergonha de ser como é. O seu desabafo é um alerta contra todos os vícios.


O Homem de negócios
"– E de que te serve possuir as estrelas?– Serve-me para ser rico. –E para que te serve ser rico?– Para comprar outras estrelas, se alguém achar. Esse aí, disse o principezinho para si mesmo, raciocina um pouco como o bêbado."
O homem de negócios está tão ocupado contando o que acumulou que não pode desfrutar da vida. O pequeno príncipe nos faz ver que isso também é um vício.É preciso valorizar quem você é, e não o que você tem.

O Acendedor de Lampiões
"Aí é que está o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento não muda!"
Um bom homem cumpre o seu dever. Mas como ele mesmo diz, " É possível ser fiel e preguiçoso..."O universo está em constante evolução. O homem, as crenças e as relações humanas também. Mas o acendedor de lampiões não tem o bom senso de questionar as ordens e trabalha sem parar, mesmo sabendo que não vai chegar a lugar algum.
O Geógrafo
"É muito raro um oceano secar, é raro uma montanha se mover...."
O geógrafo sabe toda a teoria, mas não aplica seus conhecimentos. Nunca sai da sua mesa para explorar as descobertas. Como um bom burocrata, declara que isso é trabalho de outra pessoa.É ele quem recomenda ao pequeno príncipe que visite o planeta Terra. E deixa o principezinho abalado quando lhe conta que sua flor é efêmera...
A Jibóia
"‘Por que é que um chapéu faria medo? ’[...] Desenhei então o interior da jibóia, para que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações."
A jibóia desenhada pelo piloto quando criança é o ícone que nos ensina a ver além das aparências.
O astrônomo turco "Mas ninguém lhe dera crédito por causa das roupas que usava. As pessoas grandes são assim."Os adultos, especialmente os sofisticados materialistas, julgam pelas aparências. Por isso, o astrônomo turco é desprezado pela comunidade científica até aparecer em elegantes roupas ocidentais
A Raposa:
“Tu te tornas eternamente responsávelpor aquilo que cativas.”
A sábia raposa ensina o pequeno príncipe a compartilhar. E explica-lhe que, apesar de existirem milhares de flores parecidas, a dele é única, e foi o tempo que ele dedicou a ela que a fez tão importante.
Cativar quer dizer conquistar e requer responsabilidade. Responsabilidade por um amor, por um amigo, pelo talento que possuímos e pelo que conquistamos em nossa carreira profissional e pessoal.
Seja responsável pelas suas conquistas. Valorize-se. Cuide do que você cativou.
A Serpente
"Mas sou mais poderosa do que o dedo de um rei.”
Embora fale sempre por enigmas, é o personagem mais franco de toda a história.Ela respeita o que é puro e verdadeiro.
O Carneiro e a caixa "Desenha um carneiro para mim, por favor.” “Era assim mesmo que eu queria!”.
Nada pode corresponder ao poder da nossa imaginação. Ela supera o conhecimento, pois não tem limites, e nos impulsiona para novas descobertas.
”Quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer.”
No livro, a raposa ensina ao Pequeno Príncipe a importante lição de
que as coisas só ganham sentido quando se conhece a amizade. O Pequeno Príncipe compreende que apesar de o mundo ter milhares de rosas, a rosa de seu planeta era única, pois somente ela era mantenedora de seu amor, de seu afeto.
É estranho conceber que o processo de individuação não esteja ligado única e exclusivamente ao próprio sujeito que busca este estágio, mas tornar-se individuo só é possível quando existe o outro. Não é possível ser único, se não for para alguém.
Voltando à lição da raposa, ela diz: “o essencial é invisível aos olhos”. A individualidade se faz nas pequenas coisas, nos detalhes que muitas vezes são esquecidos. É através do afeto direcionado ao objeto que faz com que ele se torne diferente dos demais objetos. Um jeito de sorrir, um pequeno defeito, ou mesmo uma mania apaixonante são os reais responsáveis por que o sujeito possa ser, então, considerado único. Do contrário, sem estes atestados de afeto tão simples e quase imperceptíveis, todo o resto seria desperdiçado e o indivíduo não passaria de mais um entre muitos.
Como diz o Pequeno Príncipe, “o que torna belo o deserto é que ele esconde um poço em algum lugar”. Quando ganhamos um presente, ele carrega o sorriso de quem o deu, a expectativa no desembrulhar. Se fosse somente o presente em si, este não seria nada além de uma casca.
Poucos são os capazes de desfrutar destes pequenos detalhes, a maioria acaba acreditando que estas cascas são o conteúdo que buscam. Nunca encontrarão felicidade, viverão nessa eterna busca que não chega a lugar algum. Mas sobre isso, prefiro que o próprio Pequeno Príncipe dê seu conselho:

“_ Os homens de teu planeta cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e não encontram o que procuram...”
“_ E, no entanto, o que eles procuram poderia ser encontrado numa só rosa, ou num poço de água.”
“_ Mas os olhos são cegos. É preciso ver com o coração...”
Um fugaz ato, gesto ou palavra, podem alterar por completo o nosso destino e de todos os que nos rodeiam... para o bem ou para o mal.
Assistam o diálogo entre a raposa e o Pequeno Príncipe:

A Negação da Morte: Ernest Becker fala de Otto Rank e Kierkegaard


« …nossa missão capital neste planeta é a heróica.»
(…)
« O instinto comum da natureza humana para com a realidade… sempre sustentou ser o mundo essencialmente um teatro para o heroísmo.» [William James, citado por Ernest Becker]
(…)
« É natural que o homem seja um animal maluco; deve viver uma vida maluca devido ao seu conhecimento da morte.»
(…)
« A aspiração por heroísmo é natural e admiti-lo é honesto. Se todos o admitissem, provavelmente se liberaria tamanha força represada que devastaria as sociedades tais como agora existem…»
(…)
« Não há [na cultura atual] um centro vital pulsante.»
(…)
« […] a religião não é mais eficaz como um sistema de heroísmo, e por isso os jovens menosprezam-na. Se a cultura tradicional é desacreditada como manifestação de heroísmo, então a igreja que a apóia automaticamente se desacredita. Se a igreja, pelo contrário, decide insistir em seu heroísmo característico, talvez constate que, de maneiras cruciais, terá de agir contra a cultura, recrutar jovens para serem anti-heróis face aos estilos de vida da sociedade em que vivem. Este é o dilema da religião em nossa época
(…)
« Todo ser humano é… igualmente preso, isto é, nós… criamos uma prisão com a liberdade…» [Otto Rank, citado por Ernest Becker]
(…)
« A pergunta […] mais importante que o homem pode fazer a si mesmo é simplesmente esta: até onde tem ele consciência do que está fazendo para alcançar um senso de heroísmo?»
(…)
« E esta é a singela verdade: viver é sentir-se perdido — aquele que aceita isso já começou a encontrar-se, a colocar-se em terreno firme.»
(…)
« A Tragédia da vida a que Searles se refere é aquela que estivemos examinando: a finitude do homem, seu pavor da morte e da enormidade esmagadora da vida. O esquizofrênico sente essas coisas mais do que outro qualquer por não ter sido capaz de formar as defesas seguras que uma pessoa normalmente emprega para negá-las.»
(…)
« […] o caráter de uma pessoa é uma defesa contra o desespero, uma tentativa de evitar a insanidade por causa da verdadeira natureza do mundo.»
(…)
« Neurótico é alguém que não consegue rodear sua animalidade com uma ilusão convincente.»
(…)
« …a essência da normalidade é a recusa da realidade.»
(…)
« Isto é neurose em poucas palavras: o insucesso de mentiras desajeitadas no tocante à realidade.»
(…)
« …normalidade é neurose e vice-versa. Chamamos a um homem de “neurótico” quando sua mentira começa a demonstrar efeitos nocivos nele ou em pessoas que o cercam e ele procura ajuda clínica para isso — ou outros procuram por ele. Sob outros aspectos, chamamos a rejeição da realidade de “normal” por não ocasionar qualquer problema perceptível.»
(…)
« O que está em jogo em toda repressão humana: o medo da vida e da morte
(…)
« Uma das circunstâncias que percebemos quando estudamos a história é que a consciência de animalidade é sempre absorvida pela cultura. Esta opõe-se à natureza e transcende-a. A cultura, em sua mais recôndita intenção, é uma negação heróica da animalidade.»
(…)
« A própria salvação não mais é atribuída a uma abstraçãocomo Deus, mas pode ser procurada “na beatificação do outro”. Poderíamos chamar esta de “beatificação transferencial”. O homem agora vive em uma “cosmologia de dois”. […] O homem moderno realiza seu impulso de auto-expansão no objeto amoroso tal como outrora foi realizado em Deus. […] Como diz uma canção hindu: “Meu amor é meu Deus; se ele me aceita minha existência é utilizada”. Não é de espantar que Rank pudesse concluir que o relacionamento amoroso do homem moderno é um problemareligioso.»
(…)
« As pessoas precisam de um “além”, mas elas pegam primeiro o mais próximo; isto lhes dá a satisfação de que precisam, mas, ao mesmo tempo, limita-as e escraviza-as. Você pode considerar o problema todo de uma vida humana desta maneira. Pode perguntar: em que tipo de além esta pessoa tenta expandir-se e quanto de individualização obtém nele?»
(…)
« O limite entre a rendição natural, ao querer ser parte de algo superior, e a rendição masoquista ou autonegadora é deveras tênue, como Rank assinalou. O problema é ainda mais complicado por algo que as mulheres, como todos os mais, detestam admitir: sua própria incapacidade natural para se manterem sozinhas em liberdade
(…)
« O que Kierkegaard está dizendo, em outras palavras, é que a escola da angústia leva à possibilidade só pelo fato de destruir a mentira vital do caráter.»
(…)
« E assim se chega à nova possibilidade, à nova realidade, pela destruição do eu ao se fazer face à angústia do terror da existência. O self tem de ser destruído, reduzido a nada, a fim de ter início a transcendência de si próprio. Então, self pode começar a relacionar-se com poderes além de si mesmo. Ele tem de debater-se em sua finitude, tem de “morrer” para interrogar essa finitude e poder ver para além dela. Para onde? Responde Kierkegaard: para a infinitude, para a transcendência absoluta, para o Poder Final da Criação que fez as criaturas finitas. Nossa moderna interpretação da psicodinâmica confirma ser essa progressão bastante lógica — se você admite ser um animal, conseguiu uma coisa fundamental: demoliu todos os seus elos ou apoios de força inconscientes. Como vimos no último capítulo — e vale a pena repetir aqui —, cada criança firma-se em algum poder que a transcende. Geralmente é uma combinação de seus pais, seu grupo social e os símbolos de sua sociedade e nação. Essa é a trama irracional de apoio que lhe permite acreditar em si própria, enquanto funciona na segurança automática de poderes delegados. Ela, está claro, não admite para si mesma que vive com forças tomadas de empréstimo, pois isso a levaria a duvidar de sua própria ação segura, daquela mesma confiança de que necessita. Ela negou sua animalidade exatamente por imaginar que dispõe de poder seguro, e esse poder seguro foi obtido apoiando-se inconscientemente nas pessoas e coisas de sua sociedade. Uma vez que você revele essa fraqueza e vacuidade básicas da pessoa, sua incapacidade, então é obrigado a reexaminar todo o problema das ligações de poder. Você tem de pensar em refazê-las em uma fonte real de poder criativo e gerador. É nesta altura que uma pessoa pode começar a posicionar sua condição de criatura vis-à-vis um Criador que é a Causa Primeira de todas as coisas criadas, não meramente os criadores de segunda mão, intermediários, da sociedade, os pais e a panóplia de heróis culturais. Esses são os pais sociais e culturais, que, por sua vez, foram causados, que, por sua vez, estão enleados em uma teia de poderes de outrem.
« Uma vez que a pessoa se ponha a examinar seu relacionamento com o Poder Final, com a infinitude, e areformular seus vínculos desligando-os dos que a rodeiam para ligá-los a esse Poder Final, ela se franqueia o horizonte da possibilidade ilimitada, da verdadeira liberdade. Essa é a mensagem de Kierkegaard, a culminação de todo o seu raciocínio a respeito dos becos sem saída do caráter, o ideal de saúde, a escola da angústia, a natureza da verdadeira possibilidade e liberdade. Passa-se por tudo isso para chegar-se à fé de que a própria condição de criatura tem certo significado para um Criador; que, a despeito da verdadeira insignificância, fraqueza, morte de cada um, sua existência tem um certo sentido definitivo porque existe dentro de um projeto eterno e infinito das coisas produzidas e mantidas dentro de determinado modelo por uma força criadora. Repetidamente, em seus trabalhos, Kierkegaard volta àfórmula básica da fé: a gente é uma criatura que nada pode fazer, mas existe diante de um Deus vivo para quem “tudo é possível”.
« Toda a sua argumentação agora torna-se clara como água, segundo a qual a chave de abóbada da fé coroa a estrutura. Podemos entender por que a angústia “é a possibilidade de liberdade”, por que a angústia derruba “todas as metas finitas”, e assim “o homem que é educado pela possibilidade é educado de acordo com sua infinitude”. A possibilidade a nada conduz se não conduzir à fé. Ela é uma etapa intermediária entre o condicionamento cultural, a mentira do caráter e a abertura da infinitude com a qual a pessoa pode relacionar-se por meio da fé. Mas sem o salto para a fé o novo sentimento de desamparo por ter abandonado a armadura do próprio caráter infunde puro terror. Isso significa que se vive desprotegido pela couraça, exposto à sua solidão e desamparo, à angústia constante. Nas palavras de Kierkegaard:
« “Agora o pavor da possibilidade conserva-o como sua presa, até poder entregá-lo a salvo nas mãos da fé. Em nenhum outro lugar encontrará ele repouso… ele, que atravessou o currículo do infortúnio oferecido pela possibilidade, perdeu tudo, absolutamente tudo, de forma que ninguém o perdeu na realidade. Se nessa situação ele não se comporta falsamente face à possibilidade, se não tenta falar desviando-se do pavor que o salvaria, então receberá tudo de volta novamente, como na realidade ninguém jamais conseguiu mesmo que tenha recebido dez vezes mais, pois o aluno da possibilidade recebeu a infinitude…”
« Se colocarmos toda essa progressão em função de nosso exame das possibilidades de heroísmo, o resultado será o seguinte: o homem irrompe através dos limites do heroísmo meramente cultural; destrói a mentira do caráter que o fazia portar-se como herói no plano social cotidiano das coisas; e, ao fazê-lo, ele se abre para o infinito, para a possibilidade de heroísmo cósmicopara o próprio serviço de Deus. Sua vida, portanto, adquire valor definitivo em vez de valor simplesmente social e cultural, histórico.Ele liga seu eu interior secreto, seu talento autêntico, seus mais profundos sentimentos de originalidade, seu anelo íntimo por um significado absoluto ao próprio substrato da criação. Nas ruínas do eu cultural demolido permanece o mistério do eu particular, invisível, interior, que anelava por significado definitivo, por heroísmo cósmico. Esse mistério invisível no coração de toda criatura agora alcança significado cósmico ao afirmar sua conexão com o mistério invisível do âmago da criação.Esse é o significado da fé. Ao mesmo tempo, é o significado da fusão da psicologia e da religião no pensamento de Kierkegaard. A pessoa verdadeiramente aberta, aquela que se desfez de sua couraça de caráter, da mentira vital do seu condicionamento cultural, está além do auxílio de qualquer mera “ciência”, de qualquer padrão meramente social de saúde. Ela está absolutamente só e tremendo à beira do esquecimento, que é, ao mesmo tempo, o umbral da infinitude. Dar-lhe o novo apoio de que carece, a “coragem para renunciar ao pavor sem qualquer pavor… disso só a fé é capaz”, afirma Kierkegaard. Não que essa seja uma saída fácil para o homem, ou uma panacéia universal para a condição humana — Kierkegaard nunca é fácil. Ele fornece uma idéia extraordinariamente bela:
« “Não que a fé aniquile o pavor, mas, permanecendo sempre jovem, ela está continuamente se formando da convulsão mortal do pavor”.
« Por outras palavras, desde que o homem é um animal ambíguo nunca poderá abolir a angústia; o que pode fazer, em vez disso, é usar a angústia como eterna mola para crescer em novas dimensões de pensamento e confiança. A fé apresenta uma nova missão para a vida, a aventura da abertura para uma realidade multidimensional.
« Podemos entender por que Kierkegaard só tinha de concluir seu grande estudo da angústia com as seguintes palavras que possuem o peso de um argumento evidente:
« “O verdadeiro autodidata [isto é, aquele que por si só transpõe a escola da angústia até a fé] é, exatamente no mesmo grau, um teodidata… Tão logo a psicologia tenha acabado com o pavor, nada mais tem a fazer senão entregá-lo à dogmática”.
« Em Kierkegaard, psicologia e religião, filosofia e ciência, poesia e verdade fundem-se indistintamente reunidas nas aspirações da criatura.»
(…)
« A dinâmica do mal é devida fundamentalmente à negação da condição de criatura
(…)
« Segundo Otto Rank, a dinâmica do mal é a tentativa de fazer o mundo ser diferente do que é, de fazer dele o que ele não pode ser, um lugar livre de acidentes, um lugar livre de impurezas, um lugar livre da morte.»
(…)
« No ponto mais alto da fé existe júbilo porque se compreende que este mundo é de Deus e, uma vez que tudo está nas mãos d’Ele, que direito temos nós de ficarmos tristes — o pecado da tristeza?»
_____

Alguém já leu o livro "A negação da morte" de Ernest Becker?
Estou terminando de ler. É uma das obras mais fantásticas que já li...e a mais "perturbadora" também. Digo isso pois ela, pelo menos para mim, confirmou muitas coisas que já vinha pensando e colocou coisas que confrontaram muitas coisas minhas.
É um livro esclarecedor, até demais...Perfeito!
No meu profile tem uma citação dele!
Até mais!

É interessante que aquelas postulações, baseadas em Rank, Jung, Brown, etc...são desconhecidas pelos professores do meu curso de Psicologia que eu comentei.
Então isso prova que há muita coisa que as pessoas acabam ignorando, já talvez por ele ser impactante e criticar (com fundamento) A Psicanálise de Freud.
Entrei em contato com essa obra por causa de um projeto de pesquisa que estou desenvolvendo.
Por que será que um livro tão bom é desconhecido (apenas poucas pessoas o conhecem que não são estudiosos sobre a morte)?

"De minha parte, vejo este livro como aceno para uma nova teoria da história e da sociedade e como arma para desmascarar muitas ideologias levando necessariamente a uma nova tabela de valores. "

Isso que o Danilo escreveu logo acima é interessante, pois acredito que essa obra é por demais esquecida, poucas pessoas a leram, e pessoalmente não conheço ninguém que o tenha feito (exceto pessoas que conheço na net)!
É uma teoria interessante. Mais interessante é o fato de Becker ter sido um antropólogo, o que me fez lembrar um documentário que eu vi sobre paradigmas, que são as visões de mundo (uma forma de ver, compreender e agir no mundo). Assim, o documentário fala de como as pessoas podem ser mais originais se conseguem não se prender a um paradigma apenas. Assim, um psicólogo ficaria (mesmo que quisesse ser original) muito presso no que essa área de conhecimento desenvolveu e teria grandes dificuldades de mudança de paradigma. Foi isso que Becker usufruiu: a capacidade de olhar de uma forma diferente o ser humano, mesmo que sempre se remetendo à famosos teóricos da psicologia/psiquiatria!

Muito interessante. No momento estou relendo "Educação para a Morte: Desafio na formação dos profissionais da saúde", da Maria Júlia Kovács, que você com certeza leu, pois pretendo coordenar um grupo de estudo na minha universidade semestre que vem. Espero que dê certo, mas, como sabemos que é um tema tabu, temo que não haja participação. Porém, acho anadimíssivel psicólogos, enfermeiros e até mesmo pedagogos que não discutem sobre a morte.
Gostaria de ler sua monografia, se me permite. Tenhouma pesquisa inalizada sobre a morte e a vida, pretendo daqui duas semanas poder já divulgar meu artigo criado a partir da pesquisa.
Este livro de Becker é algo complicado mesmo, pois além de trazer idéias que vãocontra muitas coisas tidas como certas, ele mexe com a gente com certeza.


Citação interessante
Gostei muito destas palavras de Becker, e proponho que o pessoal diga o que pensam sobre isso.

"A esperança e a fé estão em que as coisas que o homem cria em sociedade tenham um valor e significados duradouros, que sobrevivam ou se sobreponham à morte e à decadência, enfim, que o homem e seus produtos tenham importância" (pg.24)

o argumento é bem sólido... mas um tanto cruel se o significado não está em si,ou no "outro" , só resta a experiência transcendental.

Essa citação foi feita pelo Danilo, que "sumiu" da comunidade e parece que apagou as msgs. 
A discussão acabou stagnando depois da saída dele.
Mas vou dizer o que penso disso (da citação e sua colocação):
Esse livro realmente é revolucionário, em todos os sentidos que podemos atribuir ao termo. Já leste ele?
O autor, Becker, tenta, na verdade, "unir" (e diz-se que ele foi um dos primeiros a fazer isso) a psiqué (ou psiquismo) com a espiritualidade.
Obviamente, para mentes fora de seu tempo, a religião, a instituíção dela feita pelo homem para controlar outros e a si mesmo, não são bem vistas e precisam ser destruídas para se construir novos valores. O que Nietzsche já desejava e ansiava.
Este livro desmarcara muitas coisas ao demonstrar e defender outas. ele não é um tratado contra as religiões, é antes contra nossa forma de ver o ser humano. Se os psicanalístas tradicionais veem a sexualidade como central, os behaviorisrta os condicionamentos, Becker e alguns poucos (como Irvin Yalom) verão na existência da finitude, no temor e negação dela o epicentro de tudo que é humano.
Anônimo



A Negação da Morte






Lendo o livro "Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, vi que ele faz referência ao livro: "A negação da Morte", de Ernest Becker. Achei muito interessante, realmente, este tipo de loucura foi bem retratada pelo autor, pena que muitas pessoas não se dão conta disso.


"Os homens são tão necessariamente loucos que, não ser louco, seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Loucos porque tudo que o homem faz em seu mundo simbólico é tentar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truque psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura."


Ernest Becker, em A Negação da Morte.


Vídeo – TANATOLOGIA: A Negação da Morte: O Medo Perante a Finitude



TANATOLOGIA
Título: A Negação da Morte: o Medo Perante a Finitude (Parte1 – Não completo)
Resumo: Vídeo acadêmico acerca da Negação da Morte. Trabalho realizado pelos estudantes de Psicologia – Turma 2009.1.
Equipe: Giselle Nascimento, Margarethe Ginane, Renato Moraes e Thayse Silva.
Requisito da disciplina de Tanatologia ministrada pelo Prof. Dr. Carlos Barros.
A Negação da Morte: Uma Abordagem Psicológica da Finitude Humana
Resenhade Ernest Becker Por Rodrigo I. R. S. Menezes




A Negação da Morte: Uma Abordagem Psicológica da Finitude Humana(1973), de Ernest Becker, é um livro iluminador que analisa, a partir de uma abordagem multidisciplinar fincada na psicanálise, o problema da morte na vida humana, a relação íntima e problemática que se configura entre o homem e esta realidade inescapável, da qual possui uma trágica consciência. O autor, que em 1974 recebeu o prêmio Pulitzer por esta obra, pretendeu reunir e sistematizar ali todo o conhecimento sobre o problema da morte produzido pelas diferentes áreas do saber ao longo da história, das ciências humanas, passando pela filosofia, à religião.
O livro parte da premissa de que “a idéia da morte e o medo que ela inspira perseguem o animal humano como nenhuma outra coisa”, representando, em realidade, “uma proposição universal da condição humana” (BECKER 2007: 11). Nesta perspectiva, as diferentes culturas constituem sistemas simbólicos complexos que têm por função negar a realidade da morte, permitindo assim que as pessoas vivam com a ilusão de estarem imunes ao Inevitável, sem o fardo de sua constante e penosa consciência. O título em si já sugere uma idéia central no livro: o conceito de mentira vital serve para explicar que, a morte desempenhando um papel crucial na existência, a tendência humana mais instintiva é negá-la através de artifícios psicológicos subconscientes de auto-engano e auto-ilusão.
O conceito de heroísmo também é central e atravessa toda a trama de análise do livro. Heroísmo, aqui, designa a atitude humana fundamental (poder-se-ia dizer arquetípica) frente ao mundo, a vida e a perspectiva da morte, definindo-se como um ideal de coragem e sabedoria que varia de acordo com as culturas e os povos; aplica-se como uma chave de interpretação psicológica e antropológica, segundo a qual “nossa tendência central, nossa principal tarefa neste planeta, é a heróica” (BECKER 2007: 19). Escreve Becker: “Não importa se o sistema de heroísmo de uma cultura é francamente mágico, religioso e primitivo ou secular, científico e civilizado. É, de qualquer forma, um sistema de heróis mítico, no qual as pessoas se esforçam para adquirir um sentimento básico de valor, para serem especiais no cosmo, úteis para a criação, inabaláveis quanto ao seu significado” (BECKER 2007: 24).
Igualmente importante para a análise de Becker (conceito diretamente relacionado àquele de heroísmo) é a categoria psicanalítica de narcisismo, que nos diz, basicamente, que “estamos perdidamente absortos em nós mesmos”, e que, para cada um de nós, “todos são sacrificáveis, exceto nós mesmos” (BECKER 2007: 20). O narcisismo é a causa do egoísmo instintual que nos torna seres essencialmente associais e agressivos, mas essa tendência narcisística tem o seu lado positivo, dir-se-ia vital, pois “um grau prático de narcisismo é inseparável da auto-estima, de um sentimento básico de valorização de si mesmo” (BECKER 2007: 21). Ademais, afirma Becker, sem um mínimo de vaidade e ilusão sobre nós mesmos, sobre nossa condição e nosso valor, cairíamos numa depressão profunda.
Em função do nosso narcisismo natural, somos seres com expectativas, exigências e ansiedades, das quais os animais estão livres por não possuírem uma consciência individual abstrata, encerrados como estão no automatismo inconsciente da natureza, na ordem da generalidade e do anonimato. Os adultos, segundo o autor, reproduzem um comportamento que aparece com muito mais nitidez nas crianças: o desejo de afirmar-se como centro do universo, reconhecido e admirado por todos, de ser o primeiro e o único, o que se torna ainda mais problemático quando há mais de uma criança – ou um adulto – competindo por esses privilégios. A esta carência de nossa psique corresponde um estatuto ontológico desejável, ao qual Becker dá o nome designificância cósmica: um sentimento oceânico de ser parte dos planos da Criação, dotado de importância e valor absolutos. Seja como for, mais do que expressar um problema pedagógico ou cultural, redutível às formas de educação adequadas (“apenas as crianças mimadas se comportam assim…”), a necessidade de significância cósmica é, segundo o autor, um dado antropológico estrutural, diretamente ligado ao terror da aniquilação pela morte e à percepção da própria nulidade na economia do universo.
Em termos filosóficos, Becker parte da premissa de que o homem não possui uma “essência”: “algo fixado em sua natureza, como uma qualidade ou substância especial” (BECKER 2007: 48), como postularam durante muito tempo a teologia e a metafísica. Ao buscar-se esta suposta essência do animal racional, nada se encontra além de uma consciência angustiada, incorporada provisoriamente a um composto orgânico “que vale cerca de 98 centavos de dólar” (BECKER 2007: 50). É justamente esse o dilema existencial do ser humano, que o autor nomeia em termos de uma condição de individualidade dentro da finitude: ele se encontra cindido entre a finitude e a necessidade da parte física do seu ser, e a dimensão da infinita possibilidade que constitui sua consciência reflexiva, seu universo simbólico, sua capacidade de abstração e imaginação. Inserindo-se numa tradição de pensadores como Pascal e Kierkegaard (ao qual ele recorrerá mais adiante), Becker aponta esta condição paradoxal, possibilitada pela presença de uma consciência dilacerada, como a causa do fardo experiencial humano, incapaz de suportar o peso esmagador de uma realidade que parece, mais do que indiferente, hostil, aos nossos sonhos e expectativas. Nosso eu, formado em tensão com aquilo que Freud chama de princípio de realidade, desenvolve, desde cedo, barreiras para impedir que o terror da aniquilação nos paralise por completo, tornando-nos presas fáceis de predadores e outras ameaças; estruturado sobre camadas de proteção simbólica contra as contingências que nos ameaçam, ele simplesmente se recusa a aceitar que esteja submetido a uma realidade que o transcende e sobre a qual não tem nenhum controle. “O homem está literalmente dividido em dois: tem consciência de sua esplêndida e ímpar situação de destaque na natureza, dotado de uma dominadora majestade, e no entanto retorna ao interior da terra, uns sete palmos, para cega e mudamente apodrecer e desaparecer para sempre. Estar num dilema desses e conviver com ele é assustador”, e é por isso que Becker acredita que “têm razão, absoluta razão, aqueles que acham que uma plena compreensão da condição humana levaria o homem à loucura” (BECKER 2007: 49).
No capítulo sobre “o caráter como mentira vital”, é analisada a maneira pela qual o ego se constitui como uma defesa neurótica contra o desespero provocado pela verdade da condição humana. Trata-se, com efeito, de uma “desonestidade necessária e básica acerca da própria pessoa e de toda sua situação” (BECKER 2007: 80). Segundo Becker, o sentimento básico da criatura consciente de si mesma é o medo, e o homem, mesmo depois de crescido, carrega em si, ainda que escamoteado, o terror profundo que a criança sente perante os mistérios e os perigos da vida. Ele é um covarde inveterado que se engana acerca de suas forças e capacidades, de sua importância e valor, para não sucumbir ao completo desespero em um mundo que pode engolfá-lo a todo momento. No fundo, ele se sabe frágil, impotente, ignorante, sem a força necessária para tornar-se o deus que desejaria ser; mesmo assim, segue adiante, mentindo para si mesmo sobre sua condição insuficiente.
Becker assume a tese de que o ser humano não possui autonomia ontológica, recebendo do exterior suas idéias, crenças, valores e significados – sua identidade mesma: “Todos os nossos significados nos são inculcados pelo lado de fora, pelas nossas relações com os outros. É isso que nos dá um ‘eu’ e um superego. Todo o nosso mundo de certo e errado, bom e mau, nosso nome, exatamente quem somos, tudo isso é enxertado em nós. Nunca sentimos que temos autoridade para oferecer coisas por nossa conta” (BECKER 2007: 72), mas isso é tudo o que nos recusamos a aceitar e admitir. Aquilo que chamamos de “caráter” – a pretensão de uma individualidade simbólica auto-subsistente – é uma ilusão, uma falsidade, uma mentira vitalresultante de uma de uma negação, de uma covardia instintiva. Assim, nossos “traços de caráter” seriam pequenas neuroses que refletem a maneira como reagimos ao problema da vida e da morte, da existência consciente em meio à cadeia alimentar. Eis porque o auto-conhecimento é tão amargo e indesejável: “A hostilidade contra a psicanálise, no passado, hoje e no futuro, será sempre uma hostilidade contra o reconhecimento de que o homem vive à custa de mentir para si mesmo sobre si mesmo e sobre o mundo, e de que o caráter [...] é uma mentira vital” (BECKER 2007: 76).
O problema da negação da morte leva o autor de encontro ao filósofo dinamarquês Kierkegaard, que produziu importantes reflexões sobre o problema existencial da morte. Becker apresenta “o psicanalista Kierkegaard”, buscando mostrar a relevância psicanalítica de sua obra, que segundo ele antecipou muitos dados da moderna psicologia clínica. Neste âmbito, Becker afirma que o maior mérito de Kierkegaard foi haver demonstrado a relação íntima que se configura entre a psicologia e a religião, no sentido de que “a melhor análise existencial da condição humana leva diretamente ao problema da existência de Deus e da fé” (BECKER 2007: 94), e vice-versa. O ponto de partida kierkegaardiano para o problema da consciência da morte é o mito bíblico da Queda, que, segundo Becker, aponta para o paradoxo existencial que é o início comum da psicologia e da religião. Ele aposta numa convergência destas duas formas culturais no sentido de iluminar o fato de que “a angústia da morte é a angústia característica, a mais intensa angústia do homem” (BECKER 2007: 96). O postulado comum entre o cristão Kierkegaard e a psicologia secular moderna é que “o homem é uma união de contrários, de autoconsciência e de corpo físico”, um ser que experimenta o paradoxo de ser meio anjo, meio besta, um animal com um rosto único e um nome próprio, mas que tem “consciência do terror do mundo e de sua morte e deterioração” (BECKER 2007: 95).
Becker segue para mostrar quão grande conhecedor dos mecanismos psicológicos de negação da morte Kierkegaard mostra ser, sugerindo já no século XIX a idéia do caráter como uma “estrutura erguida para evitar a percepção do ‘terror, perdição [e] aniquilamento [que] são vizinhos de todo homem’”. Segundo ele, Kierkegaard “entendia a psicologia tal como um psicanalista contemporâneo a entende: sua tarefa é descobrir as estratégias que uma pessoa usa para evitar a angústia” (BECKER 2007: 96). O filósofo estaria interessado em entender os estilos adotados pelas pessoas para viver sem serem perturbadas pelo terror existencial. Para ele, o confinamento em si e o automatismo cultural (“filistinismo”) seriam duas destas formas. A moderna compreensão psiquiátrica das psicoses também seria, na visão de Becker, tributária das reflexões kierkegaardianas sobre o desespero  e a loucura. Sua reflexão sobre as diferentes formas do desespero, o da finitude e o da infinitude – relacionados, respectivamente, ao fator corporal limitante e ao fator espiritual, expansivo e ilimitado, da síntese humana – mostram como o indivíduo pode beirar o colapso psíquico caso afirme em excesso, ou suprima, um de seus pólos ontológicos.
Em matéria de psicanálise, a referência principal de A Negação da Morte não é Freud, que, aliás, Becker critica por haver se esquivado do verdadeiro problema da morte, transformando o que seria uma necessidade indesejável num impulso inconscientemente desejado – a “pulsão de morte”. É o brilhante ex-discípulo e colega de círculo psicanalítico de Freud, Otto Rank, que Becker considera haver melhor trabalhado o problema da morte na psicanálise, e ele recebe em sua obra um tratamento mais elaborado. Em se tratando dos temores básicos de todo ser humano, escreve Becker, “na ciência do homem foi Otto Rank, acima de tudo, quem colocou esses temores em evidência, baseando todo seu sistema de pensamento neles e mostrando o quanto são fundamentais para uma compreensão do homem” (BECKER 2007: 78).
Por fim, neste formidável livro, que vai muito além da psicanálise e pode ser do interesse de qualquer pessoa, especialista ou não, Ernest Becker realiza uma verdadeira anatomia da consciência humana angustiada pelo drama da finitude, dissecando com uma coragem admirável os temores, obsessões e traumas que têm concurso nos mecanismos instintuais da nossa vida psíquica. Uma deliciosa leitura que, por outro lado, pode ser desconfortável e amarga, pois desarma nossas armaduras de caráter e revela as formas essenciais de mentira das quais dependemos para nos mantermos de pé. Mas desagradável e amarga tão-somente na medida em que funciona como uma espécie de remédio salutar, que tomamos na expectativa de que faça bem à alma, pela virtude do auto-conhecimento.
Livro: A Negação da Morte
Autor: Ernest Becker
Detalhes: Rio de Janeiro, Record, 2007. Trad. de Luiz Carlos do Nascimento Silva (do original The Denial of Death, 1973), 363 Págs.